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As árvores e os sentidos que lhes damos

Já desde que os tempos eram outros, que lhes atribuímos símbolos e significados que surgem com a nossa história. Repito: a nossa história, não a delas. Fomos nós que tivemos essa necessidade; a forma que encontrámos para nos aproximar delas. Desde sempre que as tentamos ouvir.

Falo-vos de árvores.

O ser humano nasce para catalogar. E estes pequenos (ou grandes) pulmões da Terra não escapam ao inventário. Além de lhes darmos nomes, damos-lhes sentidos e emoções. Trazemo-vos três exemplos que se cruzaram connosco em Chiang Mai, a maior cidade do norte da Tailândia.

Comecemos pela que eu considero mais bonita. Chama-se Plumeria e as suas flores podem percorrer todo o espectro do arco-íris, dependendo da sua espécie. Por aqui, só vimos flores brancas, mas sei que, por exemplo no Hawai, há mais de 150 espécies desta árvore de que vos falo. O cheiro que estas flores libertam é bastante agradável e intenso e por esta razão eram frequentemente utilizadas para disfarçar o cheiro da cremação dos monges budistas. Outrora, só existiam dentro dos templos e tinham uma carga muito negativa aqui na Tailândia. A (nossa) história mudou e ouve uma princesa que descobriu que basta colher uma folha e plantá-la na Terra que, facilmente, nasce outra árvore idêntica. Esta hábil reprodução depressa se espalhou pelo reino e hoje em dia vemo-la em todo o lado. É uma das árvores mais presentes na Tailândia beneficiando do clima quente que aqui se faz sentir. Hoje já não simboliza a morte, mas sim a sorte e a fortuna.

Quem está familiarizado com a religião budista, certamente, sabe do que falo quando evoco à conversa a árvore Bodhi. A par da Flor de Lótus, é possivelmente a planta mais importante para esta religião. Foi debaixo desta árvore que Sidarta Gautama, ou Buda, atingiu, através da meditação a resposta para a sua maior pergunta; ou para os mais poéticos, foi iluminado – atingiu o Nirvana. Este símbolo sagrado, com folhas em forma de coração, é intocável e muitas destas imponentes árvores são consideradas de monges e são cobertas com panos laranjas, vestimenta usada por Buda e seus seguidores.

A última árvore que vos falo, tem o nome científico Dipterocarp. Pode atingir alturas impressionantes, como esta que a Ana vos mostra. Aqui encontramos um símbolo individual e não como espécie, pois foi debaixo desta árvore que o primeiro rei e fundador de Chiang Mai morreu de uma forma peculiar: um raio atravessou a própria Dipterocarp e deu uma descarga eléctrica e mortal para o indivíduo. Hoje esta árvore, com 800 anos, é tratada e vista como um monumento.

Esta intimidade que se criou com estas espécies faz-nos desenvolver um dos nossos grandes trunfos como seres humanos – compaixão. Este nosso talento é ancestral e não deve ser esquecido. Porque, talvez, se continuarmos a dar símbolos às árvores, não tenhamos tanta vontade de continuar a arrancá-las da Terra.

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