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Índia de dois gumes

Acabados de chegar do Nepal, um país a que fomos habituados aos sorrisos e ao calor humano, Nova Deli foi um caso grave de desconforto. A Índia não começou bem connosco.

A capital tem 10 milhões de habitantes. Este número reflecte-se na exaustão de recursos e na consequente pobreza. Pessoas sem tecto e sem qualquer tipo de higiene são despejadas nas ruas de Deli. São caminhos decorados pelo lixo persistente, onde circulam vapores de urina. Esta é uma parte da cidade. A outra é composta por indianos que consomem nos centros comerciais. Os carros, as roupas e o desdém a quem lhes vai pedir esmola. Aqui não há lixo. Aqui até o sol brilha mais. Estes são os contornos de uma cultura que vive sob a forma de castas. O sangue de um é melhor que do outro, argumento mais do que suficiente para se maltratarem e se desrespeitarem.

A chegada a Nova Deli foi de loucos. Não encontrámos o hostel de imediato e nesse período fomos abordados por habitantes com sorrisos traiçoeiros e ajudas falsas, à procura de fazer dinheiro com aqueles que carregam uma mochila às costas. É a lei da sobrevivência. Isto fez com que o nosso nível de confiança descesse em relação aos indianos mesmo com aqueles que só queriam o nosso bem.

Ao encontrarmos o hostel pretendido, verificámos que estava lotado e acabámos por ficar numa típica espelunca, uma pensão muito mal localizada, suja e com ruídos nocturnos muito desagradáveis.

Precisávamos de sair de Deli e fizemo-lo em direcção a Agra, a cidade turística do Taj Mahal.

Foi aqui que começamos a perceber que a degradação dos hostels não vinha referenciada nos sítios da Internet destinados à reserva de alojamentos. Não somos clientes difíceis. Vivemos bem com pouco. Mas não gostamos que nos mintam em relação às condições, principalmente quando há locais que cortam recursos básicos como a água e a electricidade só para reduzir despesas.

Aos poucos também nos fomos apercebendo que as relações pessoais seriam, por vezes, incomodativas para nós. Os olhares fixos, curiosos e demasiado próximos eram uma constante. A Ana era enfrentada com olhos de apreciação desagradáveis, enquanto a mim me perguntavam se éramos casados. A minha resposta era sempre positiva e logo aí nos deixavam de incomodar. Nunca sentimos medo, nem sinais de violência e começámos a perceber que se demonstrássemos um tom rígido, deixavam-nos de incomodar. No entanto, acreditamos que é preciso astúcia, precaução e coragem para uma mulher viajar sozinha na Índia.

A Índia é um país extenso e não é igual em todo o lado. Como exemplo, podemos dizer que encontrámos pessoas mais abertas no Sul, em Goa. E é aqui que aproveito para começar a falar das maravilhas da Índia: a sua diversidade cultural.

Tivemos na área do Rajastão e levou-nos para uma dimensão completamente diferente. Terra de ciganos e cultura nómada, com um deserto que separa esta região, da fronteira do Paquistão. As casas, com os seus tons dourados e arenosos, embelezavam as cidades. O olhar fotográfico da Ana rendeu-se a tais encantos. Por esses lados, tivemos também oportunidade de assistir a corridas de camelos desengonçados e de passear e dormir no deserto. Esta última experiência foi das melhores que tivemos na viagem. Passar a noite nas areias finas, sob um céu estrelado hipnotizador e acompanhados pelo silêncio mais severo que já nos cantou, foi algo que nunca iremos esquecer.

Depois foi Goa. As praias índicas já há muito que nos chamavam e nós fomos. Fartos de aturar hostels desviados do nosso gosto, decidimos alugar um quarto só para nós num alojamento mais caro. Esta era, aliás, uma condição de Goa. Movida pelo turismo, os preços inflacionavam, formando uma discrepância notável numa Índia onde tudo é barato.

Em Goa ainda se vive resquícios de um paraíso para a cultura hippie. As festas psicadélicas continuam em grande plano e este Estado continua a ser local de encontro para as novas gerações da contra-cultura. Percebe-se rapidamente a razão de ter sido Goa a escolhida, quando olhamos para as suas praias. São autênticos monumentos construídos pela natureza. Gostámos muito de por aqui estar, em que fizemos vida de sol, praia e cerveja. Ficámos com pena de não termos estado mais tempo.

No fundo, assim se resumo a nossa estadia na Índia: necessitávamos de um período maior e não apenas 30 dias. Foi um erro ter feito um visto tão curto. É um país complicado. Precisámos de algum tempo de adaptação e quando começámos a gostar e a compreender a Índia estava na hora de ir para a Tailândia.

Para a próxima fazemos as coisas de maneira diferente. Viajámos demasiado rápido e não criámos raízes em nenhum lado. Desperdiçámos demasiado tempo em viagens, quando podíamos ter ficado mais tempo numa só região.

Queremos voltar à Índia. Dar uma segunda oportunidade. Apesar de muitas alegrias, acreditamos que ainda tem mais potencial.

Até já Índia!

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