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Um grito nas estradas da Índia

Se a Índia dá que falar, os transportes indianos falam por si. Não temos memória de estar em mundos tão loucos.

Os comboios podem chegar às 12 horas de atraso e os cancelamentos não são raros. A nós, viajantes e turistas, não arriscam vender bilhetes para as duas classes mais baixas, numa escala que vai até 5. Resta-nos a imaginação para concluir como serão essas carruagens, comparando com as condições em que fomos. À noite é uma sorte apanhar as nossas camas vazias; caso contrário temos que encarar o facto de expulsar alguém com um sono indiano, tão pesado como uma rocha. As nossas tralhas servirão de almofada, pois os roubos são fáceis para quem não tem vergonha de entrar e sair em cada uma das paragens que o comboio faça.

Esta é a nossa impressão da enorme rede ferroviária da Índia, onde um bilhete equivale a uma aventura nova. Mas queremos mostrar-vos dois episódios particulares noutros meios de transportes: um num táxi e outro num autocarro.


A disponibilidade de viajar durante longas horas na Índia tem que estar presente para aquele que não pretende fazê-lo de avião. Era o nosso caso e foi aqui em que obtivemos a nossa viagem mais duradoura: 40 horas de autocarro.

Deixem que vos diga que era, sem dúvida, o nosso transporte preferido. Casa de banho, grandes camas de casal, electricidade para carregar dispositivos, cortinas que nos deixavam protegidos na nossa privacidade e alguns veículos até tinham wifi. Estes eram alguns factores que nos proporcionavam uma viagem tranquila.

A contrapartida eram as horas e as imensas vezes que o autocarro parava só porque sim. Era nesta altura que o autocarro se enchia de vendedores que, sem repulsa, nos invadiam o espaço para nos conseguir extrair o seu ganha pão. Dizer que não uma vez é fácil. Dizer vinte vezes, é irritante. E certa vez que nos incomodaram de madrugada, durante o sono, a Ana saltou-lhe a tampa e com um grande “NO!!!”, amedrontou quem se dirigia a nós, já preparado para abrir as nossas cortinas.

Acontece que nós estávamos na fronteira de um estado e, como é normal, há uma certa fiscalização policial. Sim, esse senhor fazia parte da guarda militar indiana e queria nos pedir o passaporte. Não o chegou a fazer intimidado pelo “Não” mais consistente que já ouviu na sua vida. Afinal a autoridade era outra.


O segundo episódio que vos conto foi dos momentos mais assustadores que alguma vez tive.

Aconteceu numa viagem de 6 horas, enfiados num carro de uma taxista que só de olhar para ele já se desconfiava das suas capacidades como condutor. Parecia que tinha 15 anos e não falava o mínimo de inglês, algo raro na Índia.

Assim fomos, às 3h da manhã, extremamente cansados, ansiosos por um banco de trás pronto a receber os nossos corpos já pesados.

Mas a viagem estava longe de ser tranquila. O rapaz estava evidentemente cansado. Frequentemente parou para tomar “chai”, bebida com teína para o manter desperto. Às vezes assustava-nos, parando no meio da estrada apenas para molhar a cara. Quando perguntávamos se ele estava bem, respondia como podia, sem que qualquer comunicação fosse estabelecida. Houve uma altura em que desisti de dormir. Era necessário vigiá-lo.

Relembro que estávamos na Índia. Nos longos quilómetros de estradas loucas que lhes pertence. Aqui pode aparecer a qualquer momento uma vaca. Aqui conduz-se pela esquerda e, normalmente, quem faz a ultrapassagem é quem conquista a prioridade na via. Aqui os faróis dos carros estão sempre nos máximos, o que provoca o encadeamento constante. Não sei como conseguem conduzir sob estes aspectos, mas foram estes que, aliados a uma boa dose de cansaço, nos proporcionaram um dos maiores sustos da vida.

De repente, vi um camião a vir na nossa direcção, na nossa faixa de rodagem. Eu comecei a gritar e a Ana, meio adormecida assusta-se e começa a bater com a mão na porta e depressa se junta ao meu grito. No entanto (e felizmente), eu tive uma ilusão de óptica. Não vinha nenhum camião e nós éramos os únicos naquela estrada. O rapaz parou o carro e nós, cheios de adrenalina começámos a rir. Ele olhou-nos como loucos e devido ao seu inglês inexistente nunca conseguimos explicar o sucedido. Mas espero que ele quando conte esta história aos amigos se ria tanto como nós.

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