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Bons Sons Viagens 100 Nomes

Bons Sons e Cem Soldos: o par perfeito

Autorizam-nos a mudar de ares? Queremos estrear algo convosco, aqui pelo blog. Se não se importarem, falaremos do festival Bons Sons.

Esta não será uma excepção à regra. Queremos dar uso à nossa perspectiva em relação a festivais. São rumos habituais para nós e são ares que não se respiram de forma assim tão diferente das viagens, até porque nós, lembrem-se, colocamos em primeiro plano as experiências que levantamos de cada poiso. Assumidos festivaleiros, trazemos as melhores aventuras destes ajuntamentos em redor da música.

Curiosamente, este festival foi também uma estreia para nós, na aldeia de Cem Soldos. O Bons Sons, que já esteve mais próximo de ser uma festa da aldeia, afirma-se nos últimos anos como o maior festival em Portugal a dar exclusividade à música portuguesa.

Pensado e artilhado pelos moradores da aldeia com 600 habitantes, o Bons Sons abre a porta (literalmente) a milhares de pessoas. Sempre com um espírito muito comunitário entre a organização e a população de Cem Soldos, recebe-se os visitantes com uma alegria muito característica.

Este foi o nosso Bons Sons. Fez barulho durante os dias 9, 10, 11 e 12 de Agosto, com quase 50 concertos entre os 4 dias. O tema deste ano foi o Amor e segundo a organização esta edição de 2018 contou com a maior enchente de sempre. Mais de 38 mil visitantes passaram pelo concelho de Tomar.

A comunidade de Cem Soldos

Há sempre uma forte ligação entre o festival e a terra, principalmente se se estabelecer numa pequena localidade. Mas no caso do Bons Sons e de Cem Soldos esta relação é ainda mais bonita, chegando ao ponto de não se distinguirem entre eles.

É através do associativismo local que é realizado este evento que já conta com 9 edições. Aqui toda a gente dá a sua parte: abrem-se os quintais, cedem-se terrenos e até se ajuda nas lembranças para os artistas, que são feitas à mão por famílias da aldeia.

As casas, bonitas e arranjadinhas, fazem parte das paredes do festival. A intimidade dos locais está à distância de uma janela, que não se estranha ao estar aberta. Por lá, espreita uma população envelhecida. Sorridentes, não recusam estas movimentações já habituais dos meados de Agosto. Contemplam este festival com bons olhos.

Não é para menos. O Bons Sons é o rosto mais popular do projecto “Cem Soldos Aldeia Cultura” e propõe-se a atingir seis vertentes sociais: Envelhecimento, Turismo, Desporto, Urbanismo, Cultura e Educação. Tem sido uma enorme ajuda em projectos como o LAR-ALDEIA, que promove actividades e cuidados à população sénior; e a ESCOLA-ALDEIA, com os mesmos objectivos para as crianças. As acções inter-geracionais são altamente louvadas neste projecto, como o curso de costura criativa para todas as idades, que usa as peças criadas durante o ano para serem vendidas no festival e produz laços importantes entre avós e avôs, netos e netas.

Houve uma criança que nos mostrou como o festival é importante para a população envelhecida (a senhora mais velha tem 95 anos) ao contar-nos como os fundos servem para manter o centro de saúde da aldeia. O brilho que lhe reparámos nos olhos é difícil de explicar. A menina estava orgulhosa disso. É sempre mais fácil quando remamos todos para o mesmo lado.

Sustentabilidade

Foi bastante divulgada esta tendência para as boas práticas no Bons Sons. O pensamento verde foi transmitido aos festivaleiros de uma forma convincente através de novas atitudes que se têm desenvolvido ao longo das últimas edições.

Iniciativas que se formaram no campismo com WC’s secas, sem descargas de água, ou na iluminação que foi alterada para dispositivos LED. Note-se que no recinto se continua a usar casas de banho com agentes químicos e que a iluminação esteve ligada (por lapso, acreditamos), segundo o nosso reparo, em dois dias diferentes durante a hora do Sol.

De resto, o sucesso fala por si próprio. Os solos vazios de lixo e de plástico com o copo reutilizável a funcionar exemplarmente e a mostrar-se um fenómeno sustentável por cada festival que passa; e os famosos pratos comestíveis que foram uma surpresa para nós em festivais, feitos de farelo que se desintegram muito rapidamente.

Louvor à música Portuguesa

Foram 48 espectáculos que decorreram durante 4 dias. A festa começava logo a seguir ao almoço e rompia pela tarde, até ao término pela madrugada já com o Sol quase a raiar. Não é para meninos. É algo muito sério, distribuído por sete palcos divididos pela aldeia. A estes acrescenta-se outro, o Palco Garagem, animado pelos próprios visitantes que quisessem mostrar talento.

Durante algumas tardes tivemos a oportunidade de assistir a algumas sessões que ligavam a música às artes performativas. Houve também tempo para concertos inesperados pela aldeia, com alguns artistas a surpreenderem ao aparecerem em locais não previsíveis, para alguns minutos de um concerto acústico. Entre estes esteve Salvador Sobral, cabeça de cartaz logo no primeiro dia.

Nos restantes palcos fomos entretidos pelos velhos e novos nomes. Não querendo fugir ao tema do blog, que não é de crítica musical, quero falar-vos de três referências sonantes que somaram pontos no Bons Sons.

Slow J é uma revelação importantíssima no panorama do Hip Hop. Poeta maduro e muito eficaz, transmite-nos uma intensidade muito verdadeira. Entre beats ousados sente-se algo muito puro naquele cenário criado por Slow J, que, sem querer, envolve-nos em toda a sua humildade. Acompanhado por músicos muito experientes e versáteis, não desiludiu. Foi surpreendente ver um rapper a largar rimas de guitarra na mão.

Somos repetentes exaustivos dos Linda Martini. O quarteto já passou muitas vezes nas nossas vidas e conseguiu-nos sempre transmitir algo. Rock pesado e rítmico, mas hipnótico, bem interpretado por um grupo sempre a transbordar de energia. Não vimos o entusiasmo de outras vezes. Contudo, estes meninos e menina continuam a merecer toda a nossa admiração.

Por último, Dead Combo. A dupla tem vindo a mudar de estratégia e neste momento já está longe a altura em que os senhores se importavam com a intimidade, procurando salas pequenas, com ouvintes que se identificassem. Tó Trips e Pedro Gonçalves já são um fenómeno de massas e fazem bailar muita gente. A banda que neste momento arrastam segura toda a energia que o público precisa. Entre eles está o baterista Alexandre Frazão, que mostrou todo o seu vulcão técnico em dois solos monstruosos. Estão num bom caminho, os Dead Combo. Dos melhores que vimos.

Outros nomes que nos trouxeram Bons Sons: Lince, Salvador Sobral, PAUS, Cais Sodré Funk Connection, Conan Osiris, Zeca Medeiros. 10 000 Russos e António Bastos.

Mais Bons Sons

A música funcionou como pretexto. Não estava sozinha. Tinha a melhor das companhias por actividades que não se limitam a operações de marketing e entrega de brindes. Às famílias, que eram bastantes, não faltaram propostas de sorrisos. Todas as manhãs eram preenchidas por pequenos concertos de música para crianças. Os “Jogos do Hélder” são feitos e imaginados por quem lhes dá o nome, com materiais básicos como a madeira. Diversão para todas as idades garantida.

Além disto, tivemos o gosto de seguir três adolescentes numa das muitas visitas orientadas que se faziam pela aldeia. Através da população mais nova, foi possível aprender alguns pontos historicamente importantes, curiosidades e conhecer a estrutura que se encontra por trás do Bons Sons.

Crianças, velhos, jovens de todas as tribos sociais… Assim se fez o festival, que este ano estreou o sistema cashless, onde não circulava dinheiro vivo. Funcionava com um carregamento antecipado nas pulseiras de cada visitante. Moderno, mas tradicional e bastante diversificado.

Nota positiva para o Bons Sons que nos agradou bastante.

Comments (2):

  1. Filipe Morato Gomes

    06/11/2018 at 10:38

    Saudades do Bons Sons, obrigado por me fazerem recordar esse festival que não é bem um festival de verão – é algo diferente, mas muito melhor. Em jeito de partilha, deixo aqui o relato do meu primeiro festival Bons Sons, um dos dois únicos que costumava frequentar, a par com o famigerado Andanças.
    Grande abraço e parabéns pelo vosso relato (deve ser sido fantástico ouvir Dead Combo na aldeia).

    Responder
    • Viagens 100 Nomes

      09/11/2018 at 19:32

      Filipe: Obrigado pelo teu comentário e pela partilha. O Bons Sons tem realmente uma estrelinha muito especial que nos faz querer voltar. É como se fosse uma festa entre amigos, em que nunca estamos sozinhos. Muito acolhedor.
      Se gostaste desta viagem entre festivais, andamos também pelo instagram. 🙂 Não faltam por lá novas experiências e prometemos-te boas imagens.
      (Dead Combo foi BRUTAL!!!)

      Um abraço e muita sorte para ti.

      Responder

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