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Geres - Viagens 100 Nomes

Gerês – a conta que Deus fez

Foi um fim de semana que já nos apetecia. Sumir entre as montanhas. Tirar uns dias de folga dos estímulos rápidos e cansativos que fazem os nossos dias. O Gerês tem essa capacidade e nem a chuva insistente nos desanimou.

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Soajo e Lindoso

Começámos na aldeia do Soajo, em horas do gado voltar para casa. O Koli, que não está habituado a animais de quatro patas maiores que ele, prendeu-se na trela. Guiámo-lo até ao centro da aldeia que conta com uma estátua de um canídeo, precisamente. Não deu importância ao monumento que revela uma mentira.

Uma memória que honra a raça “Cão Sabujo da Serra do Soajo”, e diz que esse é o verdadeiro nome dos Castro-laboreiro. Surpreendeu-nos esta lacuna na história dos animais domésticos. Ao que parece, alguns exemplares desta raça foram doados à monarquia portuguesa, o que fez com que os habitantes de Soajo se vissem livres das obrigações fiscais durante longos anos. Mesmo depois da curiosidade desfeita, o Koli continuou a não dar importância. Havia coisas mais interessantes, como os gatos fofinhos que se passeavam pelos espigueiros seculares da aldeia. Estes, os espigueiros, elevam-se do chão para secar o milho de quem o colhe. Assim, ao alto, afastam as bocas dos animais que lhe chamariam um figo. É uma função que cumprem desde tempos que não são de agora. Um dos espigueiros é datado de 1783. No total são 24. Um por cada hora do dia que eu passava a apreciar a calma da aldeia de Soajo.

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Mas os dias estão curtos e há que aproveitar a luz. Seguimos para Norte porque sabíamos que dali a 10 km nos iríamos cruzar com Lindoso. Uma aldeia muito importante na nossa história como portugueses, que, aproveitando a sua localização fronteiriça, construiu-se um castelo com os canhões apontados para a Galiza. Foi determinante tanto na construção de Portugal, assim como na restauração da independência, 500 anos depois.

Dali a umas horas, passámos a fronteira com Espanha. Passámos no antigo controlo que separa os concelhos de Terras do Bouro e de Lobios. Voltei a recordar o castelo de Lindoso e a história que nos persegue. Apreciei com orgulho o meu tempo, a minha geração. O quanto nos podemos considerar sortudos por ter visto uns edifícios a cair de podre, em vez de um contingente militar a controlar o que se vai fazer no passo seguinte. Por ter visto o Koli a cheirar cada canto do castelo, em vez de canhões ou flechas a disparar. As fronteiras só nos trazem dores de cabeça. Para quê as ter? O direito de circulação é um direito instintivo de cada ser que vem à Terra.

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A saúde do Gerês

Voltemos ao Gerês. Esperava-nos uma cabana que reservámos uns dias antes, na aldeia comunitária da Ermida. Era um sítio sem luxos, mas quentinho. Pequeno, mas aconchegante. As coisas mínimas fazem-nos estar mais perto uns dos outros.

Ouvimos a chuva toda a noite. Na manhã seguinte, continuava. Quais são as desvantagens? O Koli quando para, molhado, parece uma esponja a tremer de frio; a visibilidade é nula nos miradouros; a máquina fotográfica não tem tanta liberdade para andar cá fora.

E as vantagens? Temos o Gerês só para nós e os rios estão cheios de força. Foi assim que nos foram apresentadas as cascatas do Arado, do Tahiti e da Rajada, durante as nossas caminhadas. As três com uma força impressionante. Hipnotizavam só de as ver e ouvir. A frequência da água tem poderes incríveis, principalmente quando se está rodeado de montanhas gigantes, com as terras pintadas do castanho das folhas que o Outono fez cair, que choravam pequenos cursos de água que andavam ao sabor da gravidade. O Gerês mostrou e deu-nos saúde.

O fim de semana não estaria completo sem uma refeição carregada de regionalismos, num restaurante com lareira. Não foi difícil de encontrar. Enchemos o bandulho de satisfação e finalizámos a última tarde com os corpos bem quentes, nas termas romanas naturais de Bande, perto de Ourense, já na região da Galiza. Deixámo-nos perder entre os vapores que vinham de águas que há muito que se dizem medicinais. Se a água estava a 40º C, imaginem o quente que estava nos nossos corações. O Gerês, é isto.

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